Bruno Bobone fala sobre o livro “Doce Amargura”

A história da empresa açucareira Senna Sugar é contada no livro ‘Doce Amargura’. Leia a opinião de Bruno Bobone, presidente da CCIP.

No seu habitual artigo de opinião publicado semanalmente no Diário de Notícias, Bruno Bobone, presidente da CCIP – Câmara do Comércio e Indústria Portuguesa – aborda um livro que considera “extraordinário”. Trata-se de Doce Amargura, de Paul Laperre, e conta a história da empresa açucareira Senna Sugar, em Moçambique.

Reproduzimos aqui os principais pontos do artigo do responsável pela CCIP. 


Um livro da História

Foi lançado recentemente um livro extraordinário sobre a vida de uma das maiores empresas açucareiras mundiais que existiram em Moçambique e que era uma das suas maiores fontes de rendimento. A Senna Sugar.


O livro, Doce Amargura, foi escrito por Paul Laperre, holandês, que aí trabalhou durante as décadas de 1960 e 70, com uma enorme quantidade de informação e uma capacidade rara de ser neutral, apresentando sempre diferentes visões do mesmo acontecimento e retratando-o com enorme detalhe.

O livro trata de um período de cem anos da presença de Portugal em África, da independência de Moçambique e da guerra civil entre a Frelimo e a Renamo.

É um livro que consegue ser um romance da vida do criador da empresa, uma história da sua família, uma história de uma indústria, um retrato sociológico da época e um livro de história de dois países.

Aventuras que merecem ser contadas

A obra é verdadeiramente excecional, muitíssimo interessante e é ainda um serviço público aos nossos países, pois é um documento fundamental para entender os últimos cem anos de presença de Portugal em África.


Por tudo isto estão de parabéns o seu autor, Paul Laperre, e Diane Villax, que o promoveu e o estimulou a editar esta obra.

Apenas tenho pena de não encontrar mais testemunhos como este, que os haverá em grande quantidade, e que infelizmente estarão a desaparecer com aqueles que viveram essas experiências e que não tiveram a oportunidade ou o saber de as escrever.

Essa é a fraca força da nossa cultura.

Pessoas de uma capacidade excecional que foram capazes de se lançar pelo mundo fora em condições de enorme dificuldade, vivendo verdadeiras aventuras a merecerem ser contadas, mas que, ao voltarem aos seus lares, deixam que o tempo leve esses momentos e essas histórias, sem que delas fique registo marcante e cultura para os que vierem depois.

Uma cultura de viver e de enfrentar as dificuldades, mas sem cultura de registar os seus êxitos e as suas desgraças.


E, ainda que possamos ter a sorte de que algum outro estrangeiro decida relatar a sua experiência no nosso país, será sempre com os olhos da sua própria cultura e da sua própria verdade, sempre condicionado por preconceitos e ideias preconcebidas que darão uma imagem mais crítica e muitas vezes incompreendida daquilo que este povo tão bem fez pelo mundo.

Com defeitos, naturalmente, como todos os outros, mas com enormes qualidades que aos outros não interessam louvar.

Intervir nos destinos da humanidade


Grandes homens e grandes feitos que conhecemos e reconhecemos foram sempre relatados por quem estava próximo de quem os fez e, em casos muito especiais, pelos próprios que nunca quiseram deixar em mãos alheias a descrição das suas ações.

Tanto César como Churchill não deixaram de dignificar a sua intervenção nos destinos da humanidade.


É apenas justo que Portugal também possa beneficiar de quem o faça.

De quem conte a história da vida de quantos sonharam, trabalharam, arriscaram e criaram para fazer tudo aquilo que Portugal deixou por esse mundo fora e que ainda hoje é uma parte muito significativa daquilo que se conhece da história do nosso planeta.

Apostemos em contar as nossas histórias para fazermos grande a história de Portugal.

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