Relançamento industrial deve ser prioridade

Transcrevemos, neste artigo, a opinião de António Saraiva, presidente da CIP, sobre as tensões geopolíticas e seu efeito na atividade industrial e comercial.

António Saraiva, Presidente da CIP

O aumento das tensões geopolíticas entre as principais potências mundiais está a tornar-se cada vez mais evidente nos últimos meses, surgindo continuamente novos focos de conflito.

A crescente interdependência económica entre as nações, alimentada durante décadas, desencoraja a eclosão de conflitos armados, mas, ao mesmo tempo, torna ainda mais nefastas as eventuais consequências desses conflitos.

Às portas da União Europeia, as ameaças de um confronto violento entre a Rússia e a Ucrânia sobem de tom. Estou certo de que, a tornar-se realidade, tal confronto levaria a uma escalada de retaliações económicas. Basta pensar na dependência energética da Europa face ao fornecimento de gás natural proveniente da Rússia para termos uma noção das consequências alarmantes de tal eventualidade para toda a economia europeia.

Noutros casos, mesmo sem um perigo de guerra eminente, as tensões políticas alastram ao comércio internacional. A intimidação económica é usada cada vez mais como arma política.

O exemplo mais recente é o bloqueio pela China à entrada de mercadorias lituanas nos seus portos, em retaliação à abertura de uma representação diplomática de Taiwan em Vilnius.

Com o intuito de conter este tipo de práticas, a Comissão Europeia apresentou esta semana a proposta de um novo mecanismo que permitirá impor sanções, de forma rápida e decisiva, contra países terceiros que usem restrições ao comércio ou ao investimento como arma para interferir em decisões políticas da União Europeia ou dos seus Estados-membros.

Apresentado com o principal objetivo de dissuadir – mais do que punir – eventuais chantagens comerciais, este instrumento prevê um leque alargado de possíveis retaliações, incluindo tarifas adicionais e restrições às importações, como último recurso depois de todas as formas de diplomacia e envolvimento internacional estarem esgotadas.

Sendo um importante passo para salvaguardar os valores e interesses europeus num cenário geopolítico cada vez mais difícil, este é também o sinal de uma envolvente externa mais perigosa e imprevisível.

Seria bom que, simultaneamente com esta estratégia defensiva, a União Europeia fosse igualmente forte numa estratégia comercial de abertura ao mundo, através de acordos equilibrados mas ambiciosos com parceiros-chave, reforçando assim o seu posicionamento na economia mundial. Lamentavelmente, temos assistido a poucos progressos nesta frente.

É igualmente importante que os fundos dos Planos de Recuperação e Resiliência sejam utilizados em prol do reforço de uma base industrial renovada, mais forte e mais resiliente, combatendo as vulnerabilidades e dependências excessivas que se tornaram bem visíveis nesta crise e que se revelam agora ainda mais perigosas.

Este é, naturalmente, um desafio crucial, também para Portugal: fazer do relançamento industrial uma prioridade na afetação dos fundos europeus, seja no quadro do PRR, seja no futuro Portugal 2030.


por António Saraiva, Presidente da CIP
Publicado no Dinheiro Vivo a 11.12.2021

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